26.7.19

A montanha pulverizada



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A montanha pulverizada
(Carlos Drummond de Andrade)


Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.
Era coisa de índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é a sua vista a contemplá-la.
De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.
Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra vai,
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.


 (Carlos Drummond de Andrade)

12.7.19

DORME JOÃO

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"Dorme, João." O fim do mundo segundo a atriz Maria Ribeiro, que escreve em O Globo, bem pra danar:"Hoje é dia dez de julho e Deus morreu há quatro dias. Em casa, a poucos metros do violão, no Brasil do avesso da poesia, no metro quadrado que ele fez de pátria, o tempo pediu Silêncio pro coração do maior artista brasileiro. Sim, Silêncio. Com maiúscula.

Falemos baixo, escreveu Adriana Calcanhotto. Sussurremos, continuo aqui. Cantemos pra dentro. Dancemos pra si. Rezemos desafinados, e, principalmente, atualizemos nosso vocabulário. “Avarandado”. “Estate”. “SWonderful”. “Falsa baiana”. “Chega de saudade”. “Águas de março”. Na Rua Nascimento Silva, em um salão de beleza a uma quadra do número 107 da Elizeth, pintando as unhas de vermelho e trocando mensagens de amor pelo celular, recebi, às quatro horas da tarde do último dia seis, a notificação do fim do mundo: “morre, aos 88 anos, o cantor João Gilberto”. Era sábado.

De lá pra cá, na esteira dessa frase, vieram outras, todas apocalípticas, todas violentas, todas em voz mansa. Morre, aos 519 anos, a Terra Brasilis. É extinto, depois de 2019 verões, o calendário gregoriano. Foi descoberto esse conjunto de terras que um dia foi batizado Vera Cruz. Chega ao fim, pra sempre e sem a anestesia do “eterno enquanto dure” do Vinicius, o futuro do samba. É demolido, depois de lenta agonia, o que restava do Leblon. Aliás, não só ele. Junto ao sono do João, findam também um Rio de Janeiro, a Bahia e o resto de beleza que morava, já de favor, nessa terra de palmeiras. Falemos baixo, por favor.

Eu sei, ainda temos Caetano. E Gil. E Chico. E Jorge, Tom Zé, Gal, Bethânia, e tantos outros. Nossa música é nossa bandeira, já dizia alguém. Nossa cura do câncer. Nosso casamento sem dor. Nosso colo de mãe, nossos filhos com saúde, nossa palavra certa num momento de desespero. É nossa música quem, há anos, vela, com bondade, as cinzas do nosso futebol. É graças à bossa nova que continuamos respirando, ainda que por aparelhos, depois do que vimos, no último domingo, pela televisão ou ao vivo, na tribuna do Maracanã.

Mas isso agora não importa. João morreu, e eu queria deixar esse espaço em branco. João morreu, e eu queria que as escolas colocassem as crianças pra ouvir “Amoroso”. João morreu, e eu queria chorar. João morreu, e eu queria agradecer. João morreu, e eu queria pedir perdão. João morreu, e eu queria perdoar. João morreu, e eu queria ter fé. João morreu, e eu queria pedir Silêncio. Com maiúscula. O Brasil tá dormindo, João. Tô cantando “Estate” enquanto o país cochila no colo do meu amor, os olhos fechados, um vento balançando meu cabelo.
Dorme, João."

20.3.19

Silenciosamente

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Algo está silenciosamente a acontecer; nos campos e nas cidades. Chegamos no esgotamento.
Não estamos felizes, dormimos mal, comemos mal...  Já não nos dedicamos ao amor intensamente; nos desrespeitamos, estamos sem controle do tempo e a ansiedade transformou-se no mal do século.

Jovens de todas as idades confessam-se infelizes, sem orientação, sem objetividade;
estão super antenados, mas sem vida com amor, baixa autoestima, sem controle emocional e sem a consciência dos limites. Desrespeitosos, insatisfeitos, agridem pais, professores, idosos, autoridades...
Agridem por qualquer divergência, são frios e muitos alienados. Estão inquietos com imposições comportamentais que lhes atormentam; tornaram-se intransigentes, discriminadores, intolerantes, racistas e em conflito ideológico permanente.

Homens e mulheres jovens em sua grande maioria,  perderam-se no meio do caminho do social, no meio educacional e nas famílias. Já não transitam  nos limites das responsabilidades, zumbis eletrônicos os definimos; o trabalho já não lhes trazem alegria e realização; instalou-se o desamor, o conflito interior, o caos.

Mas mesmo diante deste cenário, há uma perspectiva de mudança e já há sinais de que nas próximas décadas estaremos convivendo com seres humanos mais compassivos quebrando as barreiras e revolucionando comportamentos pois o mundo chegou no seu limite geográfico e psico-social.

Agora  cehgou a hora de um novo paradigma, alimentar, comportamental, libertário,
enfim, um novo sistema organizacional é imperativo para a sociedade que resgate o prazer do convívio interpessoal e social, enfim;  estabelecendo um modelo mais Off Line(quente) e Menos On Line(frio), mais sentimento e diálogo olhando no olho, sentindo o cheiro e a temperatura do afeto humano que foi esquecido nessas décadas inicias desse novo milênio.

Há algo de novo silenciosamente acontecendo e o mundo certamente
irá se transformar para melhor, acreditemos!

 J.Carvalho

29.1.19

Mar de Dor


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"MINAS NÃO TEM MAR, MAS FIZERAM DOIS DE LAMA DAS MINAS"

..." cadê minha casa que tava aqui?
cadê meu boi, meu cavalo,
meu cachorro?...
Cadê meu pé de mamão,
meu carrinho de mão,
meu pé de limão,
cadê meus livros?
Cadê meu arroz, meu feijão,
cadê meu colchão
cadê meu pai, minha mãe
meus irmãos?...
A lama levou minha vida,
meus sonhos
meu porto seguro
meu chão...
não foi a lama não
foi o homem que fez a lama
que jogou Mariana e Brumadinho no chão
tingiu de marrom as águas do meu rio Doce
coloriu de terra meu Paraopeba
vai tingir meu velho Chico
vai calar a voz dos passarinhos
matar os peixes...
que será de mim?
quem devolverá tudo que levaram de mim"?

18.1.19

Verdades Inconvenientes

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VERDADES INCONVENIENTES olvidadas por todos nós. Agora é tarde, a conta chegou!
Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:
- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis com o ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse:
- Não havia essa onda verde no meu tempo.
O empregado respondeu:
- Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso meio ambiente.

- Você está certo - respondeu a senhora. Nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes.
Realmente, não nos preocupamos com o ambiente no nosso tempo.
Até as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. A secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas secadoras elétricas. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela de 14 polegadas, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado, como não sei.
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Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia batedeiras elétricas, que fazem tudo por nós. Quando enviávamos algo frágil pelo correio, usávamos jornal velho como proteção, e não plástico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.
Naqueles tempos não se usava motor a gasolina para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam à eletricidade.


Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente. Bebíamos água diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.
Na verdade, não tivemos uma onda verde naquela época. Naquele tempo, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus coletivos e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar os pais como serviço de táxi 24 horas.
Então, não é incrível que a atual geração fale tanto em "meio ambiente", mas não queira abrir mão de nada e não pense em viver um pouco como na minha época!
Agora que você leu esse desabafo, envie para os seus amigos que têm
mais de 50 anos de idade, e para os jovens que tem tudo nas mãos e só sabem criticar os mais velhos!!!
Uma aula gratuita ministrada por uma idosa considerada ultrapassada.

1.1.19

Avisos e Sinais


O primeiro respiro
O primeiro espasmo
O primeiro passo
O primeiro discurso
O primeiro gesto mudo
O primeiro aplauso
A primeira armadilha
A primeira cartilha
A primeira lição
A primeira festa
A primeira réstia
A primeira oração
O primeiro verso
O primeiro aperto de mão
O primeiro sim
O primeiro não
A primeira luz do dia
A primeira sinergia
A primeira rebeldia
A primeira doação
Avisos e Sinais
Da primeira ação
Que contagia
Que prenuncia
Que um novo tempo
Já começou!
J.Carvalho
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