Comentários: Mídia, Política, Marketing, Cinema, Literatura. Divulga: Ensaios, Crônicas e Poemas, do próprio autor e de outros.
12.6.17
5.6.17
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
31.5.17
SANGRA
Sangra em tuas veias abertas oh!
Meu país
Sangra de humilhação
Transgressão e desprezo
Sangra de ódio, na escuridão da falta de perspectiva
Sangra de medo!
Sangra e sugam os marginais,
Toda a tua seiva
Bebem da tua fartura
Estupram tuas carnes e entranhas
Te dilaceram, desidratam e menosprezam
Te abandonam, te condenam ao fracasso
Sangra no horror do escárnio
Sangra no teu amor maculado
Sangra e te abandonam na sarjeta dos degredados
Sangra e teu sangue serve às grafias impressas
São takes nas imagens dos programas e jornais
Sangra nos descasos dos facciosos congressos
Nas manipulações judiciais
Sangra por escassez de lideranças e triunfo das nulidades
Sangra por vias diretas e no viés das marginais
Sangra ao contemplar o êxito de tantas iniquidades.
J. Carvalho
23.5.17
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